Meus Oito Anos…

“Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !Como são belos os dias

Do despontar da existência !
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor !

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar !
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar !

Oh ! dias de minha infância !
Oh ! meu céu de primavera !
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã !
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã !

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar !

Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !”

Casimiro de Abreu

Este é o livro original, “As Primaveras”, publicado em 1859.

Nostalgia à parte, talvez assim como eu, se pegue pensando em anos passados que na ausência de fotos deixaram apenas boas lembranças. Acredito que os seres humanos têm uma grave tendência a lembrar somente das coisas ruins que lhe acometeram. Como nesta fase da vida não temos  muito controle sobre os rumos de nossas existências, acredito ser uma grande bobagem ficar se lamentando de situações imutáveis. Tenho boas lembranças da minha infância, e lembro de sempre ter olhado o mundo com um certo ar de aceitação perante as dificuldades, como se tudo aquilo não passase de uma grande brincadeira, que um dia em uma data não muito precisa, teria um fim. um olhar de criança traquina que andava descalça na rua que conservo até hoje.

Não vou e nem posso dizer que todos os dias foram normais, que tive a vida mais pacata, os pais que nunca erraram ou que nunca estive triste ou preocupada por motivos que fugissem do normal para a idade. Mas com o passar dos anos e a chegada da maturidade, vi com clareza que o que realmente importava nunca foi ter uma família de comercial de Margarina Doriana, ou esperar que a vida de todos eles fosse eterna, mas ter a consciência de que tudo aquilo era passageiro e não ficar triste com este fato. 

Assim como o Casimiro de Abreu, posso dizer sim que tive uma infância. Daquelas em que sempre existiu muito contato com a natureza, subidas em árvores, sonhos, histórias quase todas as noites antes de dormir,a imensidão do céu olhando estrelas do telhado, carinhos de mãe e até mesmo uma época em que a palavra irmã fazia muito mais sentido do que hoje. Acredito que a infância hoje em dia tem sido vivida com uma pressa absurda, na minha época (nascidos na década de 80), também era, mas é engraçado pensar que mesmo com as influências, nunca fui 100% contaminada pelo “mamãe quero ser grande”.


Agradeço muito a minha mãe, por ter tido certo medo de me ver cescer logo e por ter me dado um toque quando ela achou que era hora de ter mais responsabilidade. Ela nunca me deixou usar maquiagem antes da idade, nunca incentivou o namoro antes dos meus 14 anos, vigiava de longe minhas amizades, conversas e sempre teve um papo muito franco sobre a vida de uma forma geral. Agradeço ao fato de ter tido uma mãe que sabia dizer não, que me deixava de castigo, que cobrava obediência, boas notas e sobre tudo educação. (nem sempre segui tudo que ela falava, natural, mas ela bem que falava.rs) Admiro o fato dela ter tentado mostrar que acima de tudo era uma amiga, e como todos aqui na Terra, humana e portanto pasível de erro e dor.

Agradeço pelas vezes em que ela passava em uma livraria no centro depois do trabalho e trazia para casa um livro para mim e outro para minha irmã. Ou quando mesmo cansada ainda tinha pique para perguntar como tinha sido nosso dia, o que aprendemos no colégio, e  se perder em desvaneios durante a noite contando histórias inventadas por ela sobre borboletas azuis ou flores e batatas. Agradeço por ter crescido em uma casa com 6 pessoas, acho que me ensinou a ser mais altruísta que muito filho-único que eu já vi. Não tinha muito espaço para o egoísmo em nossas vidas. Ao menos na teoria esse pensamento funcionava, mas com 6 pessoas em um sobrado, ou você cedia ou incomodava.


Sonho em um dia ser mãe, sempre adorei crianças, sempre ouvi de namorados coisas como “você daria uma boa mãe” e geralmente era aquela garota para quem eles falavam sobre casamento. Acredito que quem não gosta de criança, ou não teve infância ou não presta! Simples assim.  Talvez hoje eu pense assim por ter tido um contato legal com crianças educadas, ou por ter casado e mesmo não querendo ter filhos agora já não ter o mínimo medo de engravidar. Quem sabe a maturidade, a mesma companheira que me fez entender através das dificuldades os por quês de muitas escolhas, me fez ver de uma forma boa a responsabilidade sobre a vida de alguém. Quem não sabe cuidar de si nunca cuidará bem de alguém.


Espero que meus descendentes possam também colher conchas na praia, subir em árvores e ter um quintal grande para brincar, espero não ter apenas um filho já que acho que é saudável ter irmãos. Na ausência dos pais (como é o meu caso) serão sua única ligação direta com o passado e seus primeiros amigos.  Desejo poder viver cada fase de minha vida sem pressa, por etapas, e quem sabe ser uma mulher tão bacana e vencedora como minha mãe foi. Ser um exemplo em muita coisa, já que a educação se aplica mesmo nos exemplos, tanto os bons quanto os maus. Como eu disse antes, não vou dizer que meus pais nunca erraram, pois o fizeram diversas vezes e esses erros me afetaram de diversas formas. Mas não cabe a mim julgar. Mas o simples fato de terem tentado ao contrário de muita gente que eu vejo todos os dias, já os torna especiais.



Acredito que esse será o único post falando um pouco sobre a minha infância, sobre a minha ausência de pressa em perder a virgindade ou dar o primeiro beijo. Foram coisas que eu não pressionei, simplesmete aconteceram na hora certa. Sobre o mundo louco que estamos vivendo e minha preocupação com o amanhã.  De forma subliminar sobre o que me fez pensar sobre isso.  

Amo tanto meu esposo que é quase inconfessável o desejo que tenho de um dia ver em forma de gente, correndo pela casa, um pedacinho do nosso amor. Eu nunca disse “mamãe quero ser grande”, hoje eu de fato sou gente grande, espero que na hora certa. Tomei para mim tantas responsabilidades nos últimos 3 anos que não sobrou espaço para a imaturidade. Não tenho saco para gente imatura, estouradinha ou fútil. Mas isso fica para outro post.

Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !



Infância que eu não mudaria uma vírgula, e que por mais que me faça sorrir ao lembrar, não gostaria que voltasse.




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